Enxaqueca: entre o invisível e o imprevisível

Você evita marcar compromissos importantes em determinados períodos do mês porque sabe que pode ter uma crise. Ou percebe que começou a organizar viagens, reuniões e prazos em torno da possibilidade de uma nova dor.

Há também um custo menos visível: você está presente — na reunião, no prazo, no compromisso — mas operando abaixo do seu potencial. Raciocínio mais lento, memória menos precisa, dificuldade de sustentar foco. Esse impacto raramente é atribuído à enxaqueca — e raramente entra na conversa médica.

A enxaqueca é uma doença simultaneamente invisível e imprevisível.


A enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça forte. Trata-se de um distúrbio neurológico complexo, marcado por uma maior sensibilidade do cérebro a diferentes estímulos. A dor costuma ser precedida por sinais como fadiga, irritabilidade, rigidez no pescoço ou dificuldade de concentração. Durante a crise em si, a dor — geralmente intensa, pulsátil, frequentemente unilateral — vem acompanhada de náusea, intolerância à luz e ao som. Qualquer movimento piora. A única saída, muitas vezes, é parar. Depois, ainda podem persistir horas de exaustão, raciocínio mais lento e uma espécie de “ressaca” que se prolonga ao longo do dia.


A doença afeta mulheres de forma desproporcional e sofre influência direta das oscilações hormonais ao longo da vida. Ciclo menstrual, gestação, puerpério, amamentação e transição menopausal podem modificar frequência, intensidade e padrão das crises. Durante a gestação e a amamentação, o manejo da doença exige atenção especial às possibilidades terapêuticas disponíveis — uma situação em que o acompanhamento especializado se torna particularmente importante.


Três ou mais dias de dor por mês já representam impacto clínico significativo — mesmo que as crises não sejam diárias. Esse é o limiar a partir do qual uma avaliação especializada pode mudar o curso da doença.


Uma consulta neurológica especializada vai além do diagnóstico. Envolve compreender o padrão individual da doença — frequência, duração, gatilhos, fases — e construir um plano terapêutico que faça sentido para a rotina e as demandas específicas de cada paciente. Situações como viagens, períodos de alta demanda profissional ou mudanças hormonais fazem parte dessa conversa.

O tratamento da enxaqueca se apoia em três pilares complementares: o manejo das crises, a prevenção e os ajustes de hábitos e estilo de vida. O engajamento ativo da paciente faz parte central do tratamento.

O objetivo não é apenas reduzir a frequência das crises, mas reduzir o espaço que a enxaqueca ocupa na vida da paciente.


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REFERÊNCIAS

Global Burden of Disease Study 2019. Lancet Neurol. 2021.
Sociedade Brasileira de Cefaleia. Diretrizes para o tratamento da enxaqueca. 2022. https://sbce.com.br
Headache Classification Committee of the International Headache Society. ICHD-3. Cephalalgia. 2018. https://ichd-3.org
Vetvik KG, MacGregor EA. Sex differences in the epidemiology, clinical features, and pathophysiology of migraine. Lancet Neurol. 2017. Steiner TJ et al. Migraine: the seventh disabler. J Headache Pain. 2013.

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